REVISTA ESPÍRITA - ALLAN KARDEC- TOMO VI - 1863
Páginas 258 e 259

A MEDICINA HOMEOPÁTICA

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS, 13 DE MARÇO DE 1863- MÉDIUM SENHORA COSTEL)

NOTA- esta dissertação foi motivada pela presença, na sessão, de um médico homeopata estrangeiro, que desejava ter a opinião de Hahnemann sobre o Estado atual da ciência. Faremos observar que foi dada por intermédio de uma jovem senhora que jamais fez estudos médicos, e à qual, necessariamente, muitos termos especiais são estranhos.


Minha filha, venho dar um ensino médico aos Espíritas. A astronomia, a filosofia têm aqui eloqüentes intérpretes: a moral conta tanto escritores quanto médiuns; por que a medicina, em seu lado prático e fisiológico, seria negligenciada? Fui o criador da renovação médica que penetra hoje até nas classes dos sectários da antiga medicina; ligados contra a homeopatia, acharam bom criar-lhes diques inumeráveis, acharam bom de exclamar: "Não irás mais longe!"a jovem medicina, triunfante, venceu todos esses obstáculos; o Espiritismo ser-lhe-á um poderoso auxiliar; graças ele,ela abandonará a tradição materialista que, há muito tempo, retardou o seu vôo. O estudo médico está inteiramente ligado à procura das causas e dos efeitos espiritualistas; disseca os corpos, e deve também analisar a alma. Deixai, pois, um velho médico justiicar os fins e o objetivo da doutrina que propagou, e que vê estranhamente desfigurada nesse mundo pelos nobres, e no alto pelos Espíritos ignorantes que usurpam seu nome. Gostaria que minha palavra escutada tivesse o poder de corrigir os abusos que alteram a homeopatia e a impedem de ser tão útil quanto o deveria.

Se falasse num centro prático, onde os conselhos pudessem ser ouvidos com fruto, levantar-me-ia contra a negligência de meus colegas terrestres, que desconhecem as leis primordiais do Organon , exagerando as doses, e sobretudo não trazendo à trituração tão importante dos medicamentos os cuidados que indiquei.Muitos esquecem que cem, e freqüentemente, duzentos golpes são absolutamente necessários ao desligamento do princípio médico apropriado a cada uma das plantas ou venenos que formam nosso arsenal curador. Nenhum remédio é indiferente, nenhum medicamento é inofensivo; quando o diagnóstico mal observado o faz dar fora de propósito, ele desenvolve os germes da doença que estava chamado a combater.

Mas deixo-me arrastar pelo meu assunto, e eis-me no pendor de fazer um curso de homeopatia a um auditório que não pode se interessar por essa questão. No entanto, não creio inútil iniciar os Espíritas nos princípios fundamentais da ci6encia, a fim de premuni-lo contra as decepções que sofrem, seja da parte dos homens, seja mesmo da dos Espíritos.


SAMUEL HAHNEMANN